9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 27.2.13

DESMATAMENTO MATA

Cientistas comprovam que, ao derrubar 15% da biodiversidade de uma rea, o homem aumenta em 30% o risco de doenas
Larissa Veloso

 QUEDA DE RESISTNCIA - Corte de rvores deixa regies mais vulnerveis a molstias transmitidas por ratos e insetos
 
Com seus hospitais, postos de sade e ambulncias, as cidades so consideradas locais que ajudam a manter os humanos protegidos contra enfermidades. Principalmente se comparadas s florestas densas e inexploradas, com seus ambientes inspitos e cheios de perigos. Mas estudos recentes demonstram que a mata pode ser muito mais benfica do que as metrpoles para a manuteno da sade humana. E essa proteo atende por um nome: biodiversidade.
 
Pesquisadores brasileiros e estrangeiros concluem que a presena de inmeras espcies da fauna  fundamental para a proteo contra doenas infecciosas, transmitidas por animais. O fato j era perceptvel por quem morava nas reas desmatadas, mas agora os cientistas comeam a desvendar o complexo sistema que fornece proteo por meio da biodiversidade. Existem apenas alguns tipos de mosquitos que transmitem a malria. Se voc conta com outros animais na mesma comunidade, eles iro ou comer o mosquito ou consumir as mesmas coisas que o inseto. Assim, o nmero de transmissores da molstia diminui, explica o pesquisador Matthew Bonds, do Departamento de Sade Global da Universidade Harvard. Usando estatsticas, ele conclui que, quando um ambiente rico em biodiversidade perde 15% de suas espcies, o risco de doenas aumenta cerca de 30%.

ABERRAES - Sem a proteo natural de seu ecossistema, sapos americanos nasceram com cinco pernas
 
Pieter Johnson, da Universidade de Colorado Boulder, nos EUA, demonstrou que isso se aplica a outros animais. Para tanto, recolheu girinos em um lago da Califrnia. Eles foram levados para lagos artificiais e infectados com os mesmos parasitas do ambiente de origem, mas com biodiversidade muito menor do que aquela encontrada em seu hbitat de origem. O resultado foi um nmero grande de sapos com mais pernas do que o normal, entre outras anomalias.
 
No Brasil, a coordenadora do Programa Biodiversidade e Sade da Fiocruz, Mrcia Chame, cita os estudos realizados pela fundao na Amaznia. Na floresta, o Trypanosoma cruzi (protozorio causador da doena de Chagas) vive disperso entre muitas espcies, como roedores, gambs, morcegos, primatas e insetos, mas em baixssima densidade e sem afetar humanos. Com a limpeza da mata para facilitar a coleta do aa na regio, muitos animais acabam mortos, o que deixa a regio perfeita para apenas um dos hospedeiros do Trypanosoma cruzi: o barbeiro. Sem predadores e com sangue humano abundante para se alimentar, o inseto deixa um rastro de doena, afirma a coordenadora.

VIZINHO INCMODO - Ao limpar terreno para cultivar aa, moradores da Amaznia deixaram o local livre para o barbeiro, transmissor da doena de Chagas
 
Segundo Norma Labarthe, subcoordenadora do Probio II, programa da Fiocruz que procura assegurar a biodiversidade, uma boa analogia  a das vacinas. Podemos pensar numa comunidade na qual metade das pessoas foi vacinada e a outra metade no. Nessa situao, quando um vrus infectar uma pessoa, ele ter 50% menos chance de sobreviver e se propagar do que se estivesse numa comunidade totalmente suscetvel, explica Norma. Isso mostra que a natureza j produz o ambiente vacinado que os humanos buscam desde a poca de Louis Pasteur (1822-1895). Assim, quanto menos biodiversidade no planeta, mais a humanidade depende de cientistas como Pasteur para sobreviver.

